segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Testemunho Pessoal: O Cuidado de Deus

Se eu pudesse resumir o ano de 2008 em palavras que o Senhor cumpriu em minha vida e na minha família seriam estas:

· “Pode uma mulher esquecer-se daquele que amamenta? Não ter ternura pelo fruto de suas entranhas? E mesmo que ela o esquecesse, eu não te esqueceria nunca.”(Is 49, 15)

· “Inútil levantar-vos antes da aurora, e atrasar até alta noite vosso descanso, para comer o pão de um duro trabalho, pois Deus o dá aos seus amados até durante o sono.” (Sl 126,2)

· “Confiai-lhe todas as vossas preocupações, porque ele tem cuidado de vós.” (I Pd 5, 7)

Mais um ano se vai, mas fica marcado no meu coração o que Deus fez por mim e pelos meus. O senhor não nos esquece nunca; dá-nos enquanto dormimos e cuida de nós.

Muitas coisas eu poderia contar a respeito do cuidado de Deus: a novo emprego de minha mãe, o meu novo estágio, a visita a familiares que não víamos há anos, nascimento de primos... Todavia, o fato mais marcante aconteceu em julho.
Dwlya, minha irmã fazia estágio em um supermercado e no segundo sábado de trabalho, ao sair, resolveu pegar ônibus para vir para casa. Na parada de ônibus estavam ela e colegas do estágio. Como o ônibus dos colegas passou primeiro; eles foram embora e ela ficou sozinha. Tudo que ela lembra é que depois chegou uma mulher e ambas – Dwlya e a mulher – ficaram a espera do ônibus.

Recordo-me que até 22 horas da noite daquele dia conseguimos falar com minha irmã e ela disse estar a caminho de casa. Passaram-se o tempo e nada dela chegar. Começamos a lhe telefonar, mas o telefone chamava e ninguém atendia. Em determinado momento o telefone dá como fora da área de serviço e começamos a ficar muito preocupados. Ao dar meia-noite e nem sinal de sua chegada; meus pais se dirigiram a polícia para dar parte de seu desaparecimento.

Foi uma noite de muito choro, insônia, preocupação e até mesmo sensação de perda – pois chegamos a procurá-la nos hospitais. Ficamos sem notícias e ninguém sabia de seu paradeiro.
Pela manhã do domingo recordo de um amigo, ao telefone orar com minha mãe. Ela estava diante de uma imagem de Nossa Senhora pedindo sua intercessão. Foi um dos momentos em que Deus nos consolou: “Ao anoitecer pode vir o choro, mas a alegria vem pela manhã.”(Sl 30, 5c). Por volta das 10 horas da manhã, recebemos uma mensagem dela no telefone dizendo que estava bem e que estava vindo para casa. Tentamos retornar a ligação, mas foi um homem que atendeu e não sabia nada a respeito da Dwlya.

Depois de 13 horas de desaparecimento; às 11 horas da manhã do domingo, minha irmã chega em casa. Ela estava com o corpo mole, muito pálida e meio aérea. Ela havia sido dopada com uma droga para dormir (Golpe: Boa Noite Cinderela, como chama a polícia). Foi um momento de muito alívio, alegria, agradecimento; rever minha irmã.

Na tarde do domingo fomos resolver as burocracias da lei: ir a delegacia, ir ao IML (Instituto Médico Legal). Foi constatado que não fizeram nada com ela – não havia nenhum indício de violência. Tudo que estava consigo foi levado, mas sua vida e integridade não.

Ela nos contou depois, que ao acordar estava em uma parada de ônibus do lado oposto da cidade onde moramos. Um homem ao vê-la sozinha na parada e cedo do dia perguntou-a se estava bem, qual seu nome, onde morava; porém ela não sabia. Ele deu seu telefone para ver se ela recordava algum número, foi quando ela nos enviou a mensagem de texto via telefone. Disse-nos ela também que ele a deu 10 reais para comer e ir par casa. Dwlya pegou a primeira van que passou e foi lembrando o caminho de casa até chegar.

“Nenhum mal te atingirá, nenhum flagelo chegará à tua tenda, porque aos seus anjos ele mandou que te guardem em todos os teus caminhos. Eles te sustentarão em suas mãos, para que não tropeces em alguma pedra.” (Sl 90, 10-12)

Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador, se a ti me confiou a piedade divina, sempre me rege, guarda, governa, ilumina. Amém.

Que os anjos do Senhor continuem nos guardando sempre!

sábado, 6 de dezembro de 2008

Testemunho Pessoal: O Renascimento

“É um desatino pensar que vamos entrar no céu sem primeiro entrarmos em nós mesmos, a fim de conhecermos nossa miséria, os benefícios de Deus e pedir-lhe muitas vezes misericórdia...”

Nunca imaginei que essa frase de Santa Tereza de Jesus fosse ser tão viva em minha vida. Aos meus 17 anos de idade, já com 5 anos de caminhada na Igreja, comecei a buscar a perfeição tudo: nos meus estudos, como família, como amigo e na minha caminhada com Deus. Isso foi virando um defeito muito grande: o perfeccionismo.

Lembro-me que estava no terceiro ano do ensino médio e que almejava muito ingressar na faculdade. Por causa disso comecei a estudar muitas horas seguidas. Em contrapartida, também participava intensamente das atividades da Igreja – eu era membro da RCC e estava à frente do ministério de intercessão. Eu estudava muito e também orava bastante deixando de lado meu lazer e até mesmo meu sono de todos os dias. Perdia o sono e ficava rezando praticamente quase toda a madrugada; dormia pouco e acordava extremamente cansado.

Minha mãe vendo minhas noites de insônia, todo meu cansaço, a magreza que tomava conta de mim e minha preocupação com o vestibular sempre me perguntava se eu estava bem e lhe respondia que sim. Certa noite; cheguei da Igreja com fome e comi comida gelada pensado ela estar muito quente. Neste dia meus pais perceberam que eu não estava bem, pediram-me para não ir à escola no dia seguinte e descansar. Daí com a sucessão dos dias; fui ficando cada vez mais cansado, sem sensibilidade física e até mesmo sem noção de tempo.

Em um desses dias fui para a casa do casal responsável pelo grupo jovem do qual participo – Iara e Washington. Eles me acolheram com muito amor na em sua casa. Lembro-me que dormi no quarto de seus filhos todo o tempo que estive por lá – Areta, Rafinha e Flávia, irmãos em Cristo. Fui tratado como filho de sangue. Levaram-me em um grupo de oração para receber orações e conversar com algumas pessoas sobre o que estava acontecendo comigo. Lá, nos foi dito que eu precisava descansar e dormi bastante. Voltei para a casa de Iara e Washington e no dia seguinte, após mais uma noite de insônia; eles me levaram junto com meus pais ao médico para uma consulta. Após consultar foi medicado um remédio muito forte para dormir: o Odol. Eu o tomei e dormi um pouco; mas ao acordar meus pensamentos começaram a ficar mais rápidos, meu emocional ficou muito fraco – me emocionava facilmente ou orar-, e alguns músculos do meu corpo começaram a ficar dormentes. Era alergia do remédio. Com o passar das horas fui perdendo todos os movimentos do meu corpo e minha memória junto. Segundo meus pais fui levado para o hospital com o corpo praticamente paralisado e perdi minha memória por 2 dias. Foi desesperador para todos que me conheciam.

Ao voltar do repentino desmemoriamento, eu estava internado em uma clinica psiquiátrica. Sentia muita dor de cabeça e meu corpo muito mole. Tive que reaprender muitas coisas: tomar banho sozinho, escutar barulhos, escovar os dentes, escrever, concentrar-se para fazer algo e etc. Tomava remédios muito fortes de tarja pretas. Todos ao saberem da notícia entraram em oração para minha melhora, quase todos os dias recebia pelo menos 15 visitas – numa delas tive a graça de receber a unção dos enfermos e comungar.

Dentro da psiquiatria vi o quanto o ser humano é miserável e necessitado da misericórdia de Deus. Por 17 dias convivi com drogados e pessoas com as mais diversas síndromes, depressões e doenças psicossomáticas por falta de perdão. Havia dias que me perguntava por que eu estava ali. Tinha ataques para querer sair daquele lugar e quando ficava muito agitado cantava a seguinte música: “Teus dedos tocam meu pensar/ Carinho em minha alma? Sossega e acalma/ minha vida agitada.../ Tua presença me acolhe/ Não vou embora/ É tua essa hora/ Estou nascendo.../ Adorarei, Espírito Santo/ Fogo Suave e abrasador/ Doce hóspede da alma.../ Meus olhos cantam ao chorar/ Arrependida.../ Ovelha fugida/ Querendo voltar/ Aprecia o canto que eu te dou/ Colhe as palavras/Saudosas da alma / Sedenta de amor...” (Ziza Fernandes).

Deus me tocou profundamente naquele lugar. Dar valor as coisas mais simples do meu dia a dia foi um dos grandes ensinamentos. Outra coisa que também aprendi foi dar valor aos meus verdadeiros amigos. Como diz santo Agostinho: “Na amizade não há necessidade”. Dentro da clinica, eu e minha família não passamos por necessidade alguma devido à presença da família Ágape de jovens, responsável pelo fluir do Amor de Deus naqueles dias conosco. Na época, como eu era menor de idade, durante o dia minha mãe ficava comigo e durante a noite meu pai. Nos dias que meus pais precisavam descansar ou resolver coisas urgentes de nossa casa seu José, o pai de Katiana, ficava comigo. Pude perceber neste gesto uma das formas de como mesmo o amor de pai pode ser compartilhado. Outros da paróquia ao qual participo também nos ajudaram muito.

Após 17 dias internado sai da psiquiatria, voltei para a escola e era acompanhado por meus amigos em tudo que fazia: ir à missa, a escola, se divertir, telefonemas. Agradeço muito a todos - José Marcos e Rafael, em especial. Com ajuda de amigos e professores na escola não reprovei de ano e conclui o ensino médio.

Continuava tomando remédios e cada vez que os tomava me sentia mais doente e incapaz. Engordei muito por conta dos remédios, cheguei a pular de 66 quilos para 82 quilos. Quando o médico me liberou dos remédios, fiz uma dieta e voltei ao meu peso normal. Passado alguns meses fiz uma prova e passei no vestibular, primeiramente para um curso que não gostava, fiz 3 semestres. Depois com incentivo de uma amiga fiz vestibular para o curso que eu queria na melhor universidade de Brasília e passei. Senti Deus devolver minha auto-estima.

Retornei para a Igreja, sarado, confiante em Deus e amando aqueles que o Senhor me confiou. Lembro-me de minha festa de 18 anos de idade. Todos meus familiares e amigos reunidos para comemorar e vitória que o Senhor me dava: o meu renascimento.
Cada vez que testemunho isso que o Senhor fez na minha vida, sou tocado novamente pelo Amor de Deus e Deus toca aqueles que me ouvem também: “Vitória, é o que vem depois da cruz e ninguém há de condenar o que teu amor tocar “ (Ziza Fernandes).