“Viu Israel o grande poder que o Senhor tinha exercido contra os egípcios. Por isso, o povo temeu o Senhor e confiou nele e em seu servo Moisés.” (Ex 14,31)
“Moisés foi fiel em toda a sua casa, como servo e testemunha das palavras de Deus.” (Hb 3,5)
Moisés é o modelo de servo de Deus, foi ele o único digno de ser chamado “Meu Servo”.
A passagem do Mar Vermelho em nossas vidas não significa que já chegamos a terra de Madiã, muito menos ainda que concluímos nossa missão. Ao contrário, passamos o Mar Vermelho, ou seja, atravessamos aquele que pudesse ser, talvez aos nossos olhos, o maior obstáculo. Nós vimos os cadáveres dos egípcios na praia do Mar, vimos o faraó ser derrotado diante de nós. E esse agir de Deus em nossa vida tem que nos conduzir a uma trajetória, a um caminho. A experiência de Deus é nada mais e nada menos que a experiência do Seu Amor, da Sua Misericórdia, da Sua Bondade para com cada um de nós. É uma experiência que precisa nos levar ao serviço, a estar a disposição do outro.
Nossa compreensão do que é serviço vai até certo ponto, é limitada. Imaginamos que estar a serviço do outro é apenas estar à disposição do irmão nas pastorais, nos grupos jovens, nos grupos de orações. E não é bem assim.
A vida não é resumida somente na nossa vida de igreja em uma pastoral, grupo ou movimento religioso. Pelo batismo somos vocacionados e despertos para vivenciar Deus em todas as áreas de nossa vida. Portanto, a experiência do amor de Deus, tenha sido ela pela efusão do Espírito Santo, por uma cura, por um milagre, uma graça, uma manifestação de Deus, tem de nos levar a um compromisso com este amor. E este compromisso gera serviço, espírito de serviço.
Jesus Cristo, sendo de condição divina, se fez servo, Servo de todos, Servo dos servos. Portanto, depois que passamos pelo Mar Vermelho, que vimos o faraó ser derrotado ou mesmo se ainda estamos em direção a este mar, se ainda estamos sendo perseguidos pelo faraó; tenhamos certeza que quem combate por nós é próprio Senhor. E que após chegarmos do outro lado do mar, no deserto, teremos que caminhar nele. Por conseguinte, o nosso chamado, a nossa vocação é para o serviço, a diaconia, vida gasta em favor do outro.
Quando se fala em gastar a vida em favor do outro não está se falando em gastar sua vida só pelos irmãos dentro do grupo A, da pastoral B ou do movimento C. Estamos falando em consumir a vida em benefício de todos aqueles que necessitarem dos nossos serviços. Consumir nossa vida no trabalho, na rua, na vizinhança, na paróquia para que todos que estejam ao nosso redor tenham vida e vida em abundância. Não podemos separar vida pastoral, vida religiosa, vida de igreja da nossa vida como um todo. É uma só vida. E é nesta vida inteira, resgatada e libertada pelo Senhor que temos de dar testemunho. Testemunho de serviço, de estar à disposição do próximo. Este é o nosso chamado.
Depois que atravessarmos o Mar Vermelho e chegamos ao deserto, teremos de caminhar por meio dele durante muito tempo, muitos anos, o tempo que o Senhor determinar. Sempre a serviço dos irmãos.
À medida que estamos em um grupo, pastoral ou movimento da Igreja; em um serviço social, de caridade, de assistência ou mesmo praticando as obras de misericórdia - Instruir, aconselhar, consolar, confortar perdoar e suportar com paciência (obras de misericórdia espiritual); dar de comer a quem tem fome, dar de beber a quem tem sede, dar moradia aos desabrigados, vestir os maltrapilhos, visitar os doentes e prisioneiros, sepultar os mortos (obras de misericórdia corporal) (CIC n° 2447) –; é preciso lembrar que estamos a serviço de todos aqueles que o Senhor coloca em nossas vidas.
É este o chamado, é esta a vocação: colocarmos-nos a serviço uns dos outros. Consumir a nossa vida para que outros tenham vida e vida em abundância. Mesmo motivo pelo qual Jesus Cristo se encarnou, morreu e ressuscitou, para que tivéssemos vida e vida em abundância. Este é o caminho, a direção que temos de seguir. Seguir o exemplo de Jesus e o exemplo de Moisés que após a passagem do Mar Vermelho serviu a todo o povo de Israel.
Convém salientar que nós não estamos a serviço somente daqueles que nós amamos, mas devemos servir a todos sem exceções ou restrições. Jesus Cristo morreu na cruz não só por aqueles que o aplaudiram, que o seguiram, que o acolheram, mas também para que todos os pecadores tivessem a salvação. Ele conquistou a vida eterna, a salvação para todos. Para aqueles que percorreram os mesmos caminhos que ele percorreu, aqueles que foram seus discípulos, seus apóstolos; mas Ele também morreu por aqueles que não aceitaram sua mensagem porque que não o conheciam, porque não tinham consciência, porque não tiveram uma experiência com Ele. Logo, quando nos dispomos a servir, numa pastoral, grupo ou movimento da igreja, não nos dispomos a servir somente aqueles que gostamos e amamos, nos dispomos a servir a todos aqueles que o Senhor colocar diante de nós. Mesmo aqueles irmãos que achamos ser uma pedra de tropeço para nós, que toda hora atrapalha a pastoral, o grupo, o movimento ou até mesmo a paróquia; é ele também o motivo do nosso serviço. Aquele (a) filho (a), esposo (a), namorado (a), pai, mãe, família, namorado (a), chefe, padre, bispo; por todos aqueles que podem ser nosso suporte ou por todos aqueles que também possam ser pedra de tropeço para nós temos de estar a serviço.
Moisés serve o povo de Israel e aquele povo o trai. Depois de terem visto as dez pragas no Egito, ao chegar diante do Mar Vermelho aquele povo murmura, reclama: ‘Era preferível ser escravo. Era preferível morrer no Egito. Era preferível estar a serviço do faraó. ’ O povo murmura contra Moisés. Todavia, Deus age: todos atravessam o Mar Vermelho e o faro é destruído. No deserto caminhando por um espaço de quarenta anos até chegarem a Canaã: quantas vezes o povo murmurou contra Moisés, contra Deus; quantas vezes o povo reclamou de Moisés e de Deus; quantas vezes o povo preferiu servi o mundo, aos deuses, ao faraó. E este povo é o mesmo povo que viu com seus próprios olhos os grandes prodígios e sinais que o Senhor realizou na vida deles para libertá-los. Foi este povo o motivo da vida e do serviço de Moisés. Moisés sempre esteve a serviço deste povo ingrato, que só sabia murmurar e reclamar.
Aquele irmão que achamos ser pedra de tropeço para nós, ele também é o motivo do nosso serviço. E na maioria das vezes, temos a tendência de só servirmos aqueles que amamos, aqueles que gostam de nós, que nos fazem bem. Todavia, temos de servir também aqueles que murmuram contra nós, que tentam nos derrubar no nosso trabalho, que nos caluniam, que nos traem. E quantos murmuram contra nós! E quantos nos caluniam! E quantos nos traem! Mas se Jesus foi traído, por que nós não haveríamos de ser traídos também? Como diz a Sagrada Escritura: “Em verdade, em verdade vos digo: o servo não é maior do que o seu Senhor, nem o enviado é maior do que aquele que o enviou.” (Jo 13,16)
Moisés foi digno de confiança daquele povo e digno de confiança de Deus porque na experiência da sarça ardente, na vivência que ele teve de Deus, ele deixa seus projetos para assumir os projetos de Deus. Logo, podemos afirmar que ser servo é deixar de ser faraó para se tornar Moisés. É fazer uma caminhada de faraó à Moisés. E sermos dignos da confiança do Senhor e da confiança do povo por não termos mais os nossos projetos pessoais. Os nossos projetos são os projetos de Deus, os projetos do Senhor para a nossa vida. Se estamos diante de uma missão que nos foi confiada pelo Senhor e sabemos que é Ele que está a frente, então é Ele que realizará a obra e somente nos resta fugirmos da tentação de realizar nossos projetos pessoais.
Vida de serviço é deixar de ser faraó para ser Moisés, deixar nossos planos pessoais para assumir os planos de Deus para nossa vida
Essa é a missão que Deus nos chama a realizar e que confia a cada um de nós: sermos servos dignos de confiança. E foi o que Moisés fez após a passagem do Mar Vermelho. O trabalho não cessou ali, apenas iniciou. Ele caminhou com aquele povo durante quarenta anos e serviu a todos de maneira igual. Quando ele clamou ao Senhor pelo maná, o pão do céu era para todos: os que trabalhavam e os que não trabalhavam, os que murmuravam e os que não murmuravam. Quanto ele bate na rocha das águas de Meribá para que povo mate sua sede: a água foi para todos que tinham sede, não somente para aqueles que colaboraram na obra com ele.
Em suma, cada um de nós é instrumento para todos aqueles que necessitam da salvação do Senhor. Todavia, temos de perceber que somos somente instrumentos na mão do Senhor. Acheguemos a Ele e digamos: “Eis que venho, venho, ó Deus, para fazer a tua vontade” (Sl 39,7/ Hb 10,7)
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