Moisés, mesmo depois te ter sido tão usado por Deus na missão de libertar o povo escravo do Egito, vai sofrer por conta de seus erros. O sofrimento do seu coração tem origem em seu ser. Faz parte do que é a pessoa de Moisés em relação a sua missão. É fruto de seus posicionamentos adotados diante do chamado que o Senhor lhe fez.
Podemos distinguir quatro fontes dos sofrimentos de Moisés:
1° OS TEMORES
1° OS TEMORES
“Moisés disse a Deus: Quem sou eu para ir ter com o faraó e tirar do Egito os israelitas?”(Ex 3,11)
“Moisés disse ao Senhor: Ah, Senhor! Eu não tenho o dom da palavra; nunca o tive, nem mesmo depois que falastes ao vosso servo; tenho a boca e a língua pesadas”.(Ex 4,10)
“Ah, Senhor! disse Moisés, mandai quem quiserdes!” (Ex 4,13)
“Moisés voltou-se de novo para o Senhor: Ó Senhor, disse-lhe ele, por que fizestes mal a este povo? Por que me enviastes?”(Ex 5,22)
“Então dirigiu Moisés esta prece ao Senhor: Que farei a este povo? Mais um pouco e irão apedrejar-me.”(Ex 17, 4)
Vemos claramente em todas essas falas de Moisés seus temores: não ter condições físicas para exercer a missão, pois é gago; sentir que a missão é grande demais e pedir para enviar outro, não a ele; pensar humanamente que a missão é fácil até o ponto de ver que não é sua vontade que prevalece; ser incompreendido pelo povo.
Moisés sofre porque não crê e vê somente a si mesmo e não a quem o envia. Ele põe sua confiança nos atributos humanos e teme fracassar. Moisés confiou em sua capacidade e não na Palavra de Deus. Ele pensou que o êxito da missão dependeria só dele.
Muitas vezes ficamos assim na missão: cheio de temores, se achando incapaz, ou querendo desistir por sermos incompreendidos. Tudo isso porque confiamos em nós mesmos e acabamos esquecendo-se de quem nos enviou e de quem faz a obra. Somos apenas instrumentos.
Fazendo um paralelo com os apóstolos vejamos a seguinte passagem: “Estavam a caminho de Jerusalém e Jesus ia adiante deles. Estavam perturbados e o seguiam com medo” (Mc 10,32). Aqui vemos claramente que estar a serviço do Senhor nem sempre é caminhar com entusiasmo, mas também avançar, seguir o caminho tendo a certeza que é o Senhor que vai a nossa frente. Sofreremos? Sim, sofreremos; mas com o Senhor ao nosso lado para nos consolar.
2°A INSEGURANÇA
2°A INSEGURANÇA
“Como não houvesse água para a assembléia, o povo se ajuntou contra Moisés e Aarão, procurou disputar com Moisés e gritou: “Oxalá tivéssemos perecido com nossos irmãos diante do Senhor! Por que conduziste a assembléia do Senhor a este deserto, para nos deixares morrer aqui com os nossos rebanhos? Por que nos fizeste sair do Egito e nos trouxeste a este péssimo lugar, em que não se pode semear, e onde não há figueira, nem vinha, nem romãzeira, e tampouco há água para beber?” Moisés e Aarão deixaram a assembléia e dirigiram-se à entrada da tenda de reunião, onde se prostraram com a face por terra. Apareceu-lhes a glória do Senhor, e o Senhor disse a Moisés: “Toma a tua vara e convoca a assembléia, tu e teu irmão Aarão. Ordenareis ao rochedo, diante de todos, que dê as suas águas; farás brotar a água do rochedo e darás de beber à assembléia e aos seus rebanhos.” Tomou Moisés a vara que estava diante do Senhor, como ele lhe tinha ordenado. Em seguida, tendo Moisés e Aarão convocado a assembléia diante do rochedo, disse-lhes Moisés: “Ouvi, rebeldes: acaso faremos nós brotar água deste rochedo?” Moisés levantou a mão e feriu o rochedo com a sua vara duas vezes; as águas jorraram em abundância, de sorte que beberam, o povo e os animais. Em seguida, disse o Senhor a Moisés e Aarão: “Porque faltastes à confiança em mim para fazer brilhar a minha santidade aos olhos dos israelitas, não introduzireis esta assembléia na terra que lhe destino.” Estas são as águas de Meribá, onde os israelitas se queixaram do Senhor, e onde este fez resplandecer a sua santidade.” (Nm 20,2-13)
O povo reclamava da falta de água. Moisés foi diante do Senhor e o Senhor o disse para ferir a rocha com seu cajado e dali brotaria água. Como nenhum homem podia fazer brotar água da rocha, o povo veria que o Senhor estava com Moisés e, mais uma vez, o povo veria a glória de Deus.
Então, Moisés reuniu o povo diante da rocha de Meribá e toca a rocha duas vezes. Uma insegurança surgiu do seu coração. Por que bater duas vezes? Se o Senhor havia dito, o Senhor faria. Logo, bater apenas uma vez era suficiente. Moisés errou por ter dúvida em seu coração e por causa desta dúvida foi privado de entrar na terra prometida.
Moisés era um homem que via a Deus face a face e mesmo assim teve dúvida em seu coração. Teve uma insegurança. Talvez nós também que já tenhamos bastante tempo de caminhada na obra de Deus possamos ter dúvida e por isso errar. Todavia, o Senhor nos Perdoa. Há determinados momentos que não suportamos carregar aquele peso que, talvez, suportamos durante anos, realidade esta que também atingiu Moisés. Há momentos na caminhada de grande crise interior. E isso acontece quando nos envolvemos pelo povo, porém o Senhor não nos poupará sua correção, mas promete-nos o perdão e a misericórdia.
3° A VIDA FAMILIAR E SOCIAL
3° A VIDA FAMILIAR E SOCIAL
“Maria e Aarão criticara Moisés por causa da mulher etíope que ele desposara. (Moisés tinha, com efeito, tomado uma mulher etíope.) “Porventura é só por Moisés, diziam eles, que o Senhor fala? Não fala ele também por nós?” E o Senhor ouviu isso. Ora, Moisés era um homem muito paciente, o mais paciente da terra. Logo falou o Senhor a Moisés, a Aarão e a Maria: “Ide todos os três à tenda de reunião.” E eles foram. O Senhor desceu na coluna de nuvem e parou à entrada da tenda. Chamou Aarão e Maria, e eles aproximaram-se. “Ouvi bem, disse ele, o que vou dizer: Se há entre vós um profeta, eu lhe aparecerei em visão; eu, o Senhor, é em sonho que lhe falarei. Mas não é assim a respeito de meu servo Moisés, que é fiel em toda a minha casa. A ele eu lhe falo face a face, manifesto-me a ele sem enigmas, e ele contempla o rosto do Senhor. Por que vos atrevestes, pois, a falar contra o meu servo Moisés?”A cólera do Senhor se acendeu contra eles. O Senhor partiu, e a nuvem retirou-se de sobre a tenda. No mesmo instante, Maria foi ferida por uma lepra branca como a neve. Aarão, olhando para ela, viu-a coberta de lepra. Aarão disse então a Moisés: “Rogo-te, meu senhor, não nos faças levar o peso desse pecado que cometemos num momento de loucura, e do qual somos culpados. Que ela não fique como um aborto que sai do ventre de sua mãe, com a carne já meio consumida!”Moisés orou ao Senhor: “Ó Deus, disse ele, rogo-vos que a cureis.”(Nm 12, 1-13)
Moisés tomou uma atitude não aceita pelas tradições e leis que ele mesmo estabeleceu e por isso recebeu críticas.
A situação é bastante humilhante, pois além dos três – Maria, Moisés e Arão – estarem à frente de Israel; eles faziam parte da mesma família. Maria é irmã de Moises, aquela que o salvou das águas e por isso se sentia sua protetora e Arão era seu profeta, aquele que Deus tinha colocado ao lado de Moisés para ser seu braço direito. Mesmo assim, Arão e Maria são punidos. Maria cai leprosa.
Quantas vezes também nos desentendemos em família! Às vezes somos até considerados testemunhos, mas mesmo assim ainda temos nossas brigas. Algumas das criticas ao nosso respeito, às vezes, começa em nossa própria casa. Porém o que Moisés fez? Moisés foi paciente e orou pelos seus, orou por Maria, para que a paz reinasse novamente em sua família.
Temos quer ser assim como Moisés: paciente, aprender a calar e a deixar o Senhor agir; suportando o mais íntimo dos sofrimentos, aquele de não ser compreendido na sua relação com Deus pelos próprios familiares.
4° A IRREFLEXÃO
4° A IRREFLEXÃO
“Moisés partiu. De volta para junto de Jetro, seu sogro, disse-lhe: “Rogo-te que me deixes partir, e voltar para junto de meus irmãos no Egito; vou ver se ainda vivem.” Jetro disse a Moisés: “Vai em paz”. Volta de Moisés ao Egito.O Senhor disse a Moisés em Madiã: “Vai, volta ao Egito, porque todos aqueles que atentavam contra a tua vida estão mortos”. Moisés tomou consigo sua mulher e seus filhos, fê-los montar em jumentos e voltou para o Egito. Levava na mão a vara de Deus. O Senhor disse a Moisés: “Agora que voltas ao Egito, cuida para que todos os prodígios, que te concedi o poder de operar, tu os faças na presença do faraó. Mas endurecerei o seu coração e ele não deixará partir o povo. Tu lhe dirás: assim fala o Senhor: Israel é meu filho primogênito. Eu te digo: deixa ir o meu filho, para que ele me preste um culto. Se te recusas a deixá-lo partir, farei perecer teu filho primogênito”. Estando Moisés a caminho, numa estalagem, atacou o Senhor Moisés procurando matá-lo. Séfora tomou então uma pedra afiada, cortou o prepúcio de seu filho e atirou-o aos pés de Moisés, dizendo: “Tu me és um esposo de sangue!” Assim o Senhor o deixou. Séfora havia dito: “esposo de sangue”, por causa da circuncisão. .O Senhor disse a Aarão: “Vai ao encontro de Moisés no deserto.” Aarão foi e, encontrando seu irmão na montanha de Deus, beijou-o. Moisés contou-lhe tudo o que lhe tinha dito o Senhor ao enviá-lo, e todos os prodígios que lhe tinha ordenado fazer. Moisés e Aarão continuaram seu caminho e reuniram todos os anciãos de Israel. Aarão repetiu todas as palavras que o Senhor tinha dito a Moisés, e este fez os prodígios em presença do povo. “(Ex 4,18-30)
No interior do seu coração, Moisés pensou que o chamado de Deus para ele era parecido o que ele já fazia anteriormente: voltar para o Egito com seu rebanho, sua mulher e seus filhos e recomeçar certo trabalho. Todavia, o Senhor queria fazer Moisés compreender que as coisas mudaram e que da primeira vez que Moisés tentou iniciar a missão, ele fez a missão a maneira dele. E desta vez, Deus estava dizendo que a missão era algo que pedia envolvimento, comprometimento até as últimas conseqüências, até a morte.
Muitas vezes também, nós, assim como Moisés, não compreendemos com profundidade nossa missão, não entendemos que nos é exigido um novo comportamento, uma nova conduta. Moisés foi chamado a deixar o homem impulsivo que foge diante dos problemas e a assumir que era o escolhido de Deus, o servo de Deus. Hoje, somos chamados a assumirmos nossa missão, nosso apostolado de leigos com total mudança de vida.
Talvez, Moisés jamais tenha imaginado a grandiosidade de sua missão. Talvez, nós também nem imaginemos a qual grande missão Deus nos chama. Porém, não podemos reduzir nossa missão em pequenas medidas, pois o próprio Deus se orgulha de nós a ponto da Sagrada Escritura afirmar: “É como está escrito: Coisas que os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou (Is 64,4), tais são os bens que Deus tem preparado para aqueles que o amam" (1Cor 2,9).
Estes são os sofrimentos que vivemos e não podemos esperar que eles sejam extintos, a não ser os que são oriundos dos nossos erros, das nossas decisões erradas. Porém, devemos abraçar uma vida que nos leve a santidade, a cumprir a vontade de Deus. E o sofrimento faz parte dela.

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