sábado, 25 de setembro de 2010

Jesus, ensina-nos a Interceder

Um ponto natural de partida para qualquer estudo de oração é a oração que Jesus nos ensinou: o “Pai nosso” ou “Oração do Senhor”. É a primeira oração que a maioria de nós aprendemos, a oração que mais frequentemente e, infelizmente, a que recitamos de enfiada, sem maior pensamento. 
Quando lemos a “Oração do Senhor” nos Evangelhos, adquirimos nova visão desta oração, que se tornou quase familiar demais. Por um lado, as palavras são um pouco diferentes, especialmente aqui, no Evangelho de São Lucas, que dá uma versão mais curta da oração de Jesus, que o Evangelho de São Mateus. A diferença de umas poucas palavras podem bastar para quebrar o elo de familiaridade e ajudar-nos a ouvir o que Jesus está realmente dizendo.
Mais importante, porém, é modo como os Evangelhos colocam a “Oração do Senhor” no contexto do ensino mais amplo de Jesus sobre a oração. Na verdade, Jesus não estava querendo ter a certeza de que sempre oraríamos naquelas mesmíssimas palavras. Ele estava nos dando um modelo de oração, uma lição de como rezar. Estava nos ensinando verdades básicas sobre nosso relacionamento com Deus, começando com a verdade-chave de que Deus é nosso Pai.
Orar a Deus como Pai não surgiu com Jesus. No Antigo testamento, encontramos outro exemplo: “Porque sois nosso pai. Abraão, de fato, nos ignora, e Israel não nos conhece; sois vós, Senhor, o nosso pai, nosso Redentor desde os tempos passados.” (Is 63,16).
No entanto, em nenhum outro lugar encontramos o senso de intimidade e total união que marcavam o relacionamento de Jesus com o Pai. Somente Jesus podia dizer: “Eu e o Pai somos um”(Jo 10,30) e “o Pai está em mim e eu no Pai”(Jo 10,38).
Quando Jesus nos ensina a dirigir-nos Deus como Pai, está nos convidando a entrar em sua própria intimidade com seu Pai. Em Jesus, tornamo-nos filhos de Deus, não apenas no sentido amplo de que Deus é a fonte última de nossa vida, mas também no sentido muito específico e único de filiação que vemos em Jesus. São Paulo diz: “Portanto já não és escravo, mas filho. E, se és filho, então também herdeiro por Deus.” (Gl 4,7)
Sempre que nos voltamos para Deus em oração, e, especialmente, quando intercedemos pelos outros, vamos a ele como filhos que se aproximam do Pai bem-amado. Podemos colocar nossas orações diante de Deus com a mesma confiança que Jesus Tinha: “Levantando Jesus os olhos ao alto, disse: Pai, rendo-te graças, porque me ouviste. Eu bem sei que sempre me ouves”. (Jo 11, 41-42).
Na seguinte leitura do evangelho de São Lucas encontramos a “Oração do Senhor” e duas parábolas que enfatizam o pedir a nosso Pai o que precisamos. Tudo nos lembra esta mesma verdade básica: podemos aproximar-nos de Deus com a confiança de que ele responderá nossas orações, porque ele é nosso Pai e nosso Amigo.
“Um dia, num certo lugar, estava Jesus a rezar. Terminando a oração, disse-lhe um de seus discípulos: Senhor, ensina-nos a rezar, como também João ensinou a seus discípulos. Disse-lhes ele, então: Quando orardes, dizei: Pai, santificado seja o vosso nome; venha o vosso Reino; dai-nos hoje o pão necessário ao nosso sustento; perdoai-nos os nossos pecados, pois também nós perdoamos àqueles que nos ofenderam; e não nos deixeis cair em tentação. Em seguida, ele continuou: Se alguém de vós tiver um amigo e for procurá-lo à meia-noite, e lhe disser: Amigo, empresta-me três pães, pois um amigo meu acaba de chegar à minha casa, de uma viagem, e não tenho nada para lhe oferecer; e se ele responder lá de dentro: Não me incomodes; a porta já está fechada, meus filhos e eu estamos deitados; não posso levantar-me para te dar os pães; eu vos digo: no caso de não se levantar para lhe dar os pães por ser seu amigo, certamente por causa da sua importunação se levantará e lhe dará quantos pães necessitar. E eu vos digo: pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e achareis; batei, e abrir-se-vos-á. Pois todo aquele que pede, recebe; aquele que procura, acha; e ao que bater, se lhe abrirá. Se um filho pedir um pão, qual o pai entre vós que lhe dará uma pedra? Se ele pedir um peixe, acaso lhe dará uma serpente? Ou se lhe pedir um ovo, dar-lhe-á porventura um escorpião? Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas a vossos filhos, quanto mais vosso Pai celestial dará o Espírito Santo aos que lho pedirem.” ( Lc 1-13)
A versão de Lucas da “oração do Senhor” inclui cinco pedidos:

1. Pai, santificado seja o vosso nome;

2. venha o vosso Reino;

3. dai-nos hoje o pão necessário ao nosso sustento;

4. perdoai-nos os nossos pecados, pois também nós perdoamos àqueles que nos ofenderam;

5. e não nos deixeis cair em tentação.

Cada um destes e pedidos tem uma implicação pessoal para cada um de nós. Pois a todo instante poderíamos nos perguntar: o que é santificar o nome de Deus em minha vida? O que é fazer vir o reino de Deus em minha vida? O que é, para mim, ter o pão necessário ao meu sustento? O que é ser perdoado? O que é perdoar? O que é não cair em tentação? A Oração do Pai-Nosso requer vivência. Crer que Deus nos escuta e nos responde.
A passagem de São Lucas continua mencionando dois homens amigos, sendo que um deles foi tão persistente com o vizinho que este lhe concedeu seu desejo. E isso, significa para nós que Jesus nos convida a pedirmos ao Pai aquilo que precisamos.
Jesus nos ensina a pedir, buscar, bater. Ele compara Deus a um Pai amoroso que fica feliz em dar a seus filhos o que lhe pedem. E ainda promete que Deus responderá nossas orações dando-nos o Espírito Santo.
“Nas vossas orações, não multipliqueis as palavras, como fazem os pagãos que julgam que serão ouvidos à força de palavras. Não os imiteis, porque vosso Pai sabe o que vos é necessário, antes que vós lho peçais. Eis como deveis rezar: PAI NOSSO, que estais no céu, santificado seja o vosso nome...” (Mt 6, 7-9)
Comparando Mateus 6, 7-9 – a introdução à Oração do Senhor – com esta parábola em Lucas. Na narrativa de Mateus, Jesus diz para não “tagarelarmos” em oração, pois “Nas vossas orações, não multipliqueis as palavras, como fazem os pagãos que julgam que serão ouvidos à força de palavras” (Mt 6,7). Outra maneira de dizer isto é que não devemos apenas tagarelar sem fim na oração. Em Lucas, ele encoraja a persistência em pedir aquilo de que necessitamos. Esta aparente contradição diz respeito a fazermos pedidos específicos, perseverarmos neles ao invés de pedir muitas coisas sem finalidade especifica para o momento em que estamos vivendo.
Muitos de nós crescêramos rezando o “Pai nosso” como uma oração de intercessão. Mas, muitas vezes, dissemos as palavras mecanicamente, com mais ênfase no número de repetições do que naquilo que estávamos dizendo.
O “Pai nosso” é um modelo para todas as orações. Ao explorar o significado desta oração que Jesus nos deu, pode-se encontrar muitas intuições para uma intercessão mais eficaz.

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