quinta-feira, 15 de julho de 2010

Moisés, O Servo Sofredor (Parte 3)

Moisés quando assume sua missão também vai sofrer por seus erros. Porém, vai sofrer mais ainda por ter assumido a missão, pois vai ser incompreendido e rejeitado pelo povo.
“Que diremos depois disso? Se Deus é por nós, quem será contra nós? Aquele que não poupou seu próprio Filho, mas que por todos nós o entregou, como não nos dará também com ele todas as coisas? Quem poderia acusar os escolhidos de Deus? É Deus quem os justifica. Quem os condenará? Cristo Jesus, que morreu, ou melhor, que ressuscitou, que está à mão direita de Deus, é quem intercede por nós! Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação? A angústia? A perseguição? A fome? A nudez? O perigo? A espada? Realmente, está escrito: Por amor de ti somos entregues à morte o dia inteiro; somos tratados como gado destinado ao matadouro (Sl 43,23). Mas, em todas essas coisas, somos mais que vencedores pela virtude daquele que nos amou.” (Rm 8, 31-37)
A Sagrada Escritura diz que o Pai entregou seu próprio filho para cumprimento das Palavras de Deus. Todavia, a mesma Escritura diz que o Filho de Deus seria suspenso no madeiro, morreria e ressuscitaria no terceiro dia. E aqui está o centro de nossa vida diaconal, do nosso serviço: SER ENTREGUE.
E refletindo a figura de Moisés, refletiremos a figura de Jesus. Pois, como ensina a Sagrada Tradição da Igreja, Moisés é a prefiguração de Jesus Cristo.
Moisés é retirado do meio do povo escravo no Egito para ser preservado. Ele é criado na corte. Da corte passa pelo seu povo, vai ao deserto e lá, é purificado. Depois, ele é entregue por Deus ao povo e se entrega livremente a este povo quando assume a missão. Assumindo a missão, ele aceita todas as conseqüências, estas que o levaram até a morte.
A diferença entre Moisés e Jesus Cristo, além do pecado que existiu em Moisés, mas não em Jesus; é que Jesus, sendo Deus, teve uma morte de Cruz para nos dar vida e vida em abundância. Todavia, Moisés e Jesus consumiram suas vidas ao serviço dos irmãos, do povo.
Mas, o que é SER ENTREGUE?
Vejamos as seguintes passagens bíblicas:
“Com efeito, de tal modo Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna.” (Jo 3,16)
“Querendo Pilatos satisfazer o povo, soltou-lhes Barrabás e entregou Jesus, depois de açoitado, para que fosse crucificado.” (Mt 15,15)
“Soltou-lhes aquele que eles reclamavam e que havia sido lançado ao cárcere por causa do homicídio e da revolta, e entregou Jesus à vontade deles.” (Lc 23,25)
“Entregou-o então a eles para que fosse crucificado.” (Jo 19,16)
“O Deus de Abraão, de Isaac, de Jacó, o Deus de nossos pais glorificou seu servo Jesus, que vós entregastes e negastes perante Pilatos, quando este resolvera soltá-lo.” (At 3,13)
“Progredi na caridade, segundo o exemplo de Cristo, que nos amou e por nós se entregou a Deus como oferenda e sacrifício de agradável odor.”(Ef 5,2)
“Porque há um só Deus e há um só mediador entre Deus e os homens: Jesus Cristo, homem 6.que se entregou como resgate por todos.” (1Tm 2, 5-6)
“Veio para nos ensinar a renunciar à impiedade e às paixões mundanas e a viver neste mundo com toda sobriedade, justiça e piedade, na expectativa da nossa esperança feliz, a aparição gloriosa de nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo, que se entregou por nós, a fim de nos resgatar de toda a iniqüidade, nos purificar e nos constituir seu povo de predileção, zeloso na prática do bem.” (Tit 2,12-14)
Deus entregou seu Filho aos homens. O Filho se entrega livremente aos homens. Isso significa que SER ENTREGUE é ser entregue para a adoração ou ser entregue para a maldição. Logo, à medida que assumimos nossa missão, a proposta de Deus para nós; somos entregues livremente ao povo para a maldição ou para a adoração. Expressa, em Jesus, que somos entregues para sermos compreendidos, amados, aceitos; mas também, caluniados, rejeitados, incompreendidos.
O Pai entregou seu Filho aos homens e o que os homens fizeram com Ele? Os homens o traíram. E se Jesus, que é Deus, foi traído; por que nós não haveríamos de passar por esta mesma situação? Não significa que isso seja uma condição imperativa: Seremos traídos! Contudo, é preciso deixar bem claro – não se trata de fazer explicações exegéticas, hermenêuticas ou até mesmo teológicas da bíblia – a necessidade de compreender a profundidade e complexidade do verbo onde reside o centro da diaconia cristã: SER ENTREGUE.
É necessário saber que quando nos entregamos livremente à missão, a esta vocação, estamos sendo entregues e nos entregando para que sejamos compreendidos ou incompreendidos. Porém, o fato de ser ou não compreendido não modifica a nossa missão.
Jesus, mesmo sendo traído, vai para o madeiro, morre e ressuscita para a salvação daqueles que o aceitaram e daqueles que o rejeitaram. Essa é nossa missão na pastoral, grupo ou movimento da Igreja. Somos entregues a todos aqueles que estão ali na Igreja para receber nosso serviço, nossas orações, nossas canções, nossas pregações, nossa catequese. Temos de dedicar a todos o nosso serviço. Independentemente, de sermos acolhidos ou rejeitados pelo povo. O centro de nossa missão é: SER ENTREGUE.
Ao assumirmos nossa missão devemos passar a errar menos e por isso sofrer menos por conta de nossos erros, o que é natural no processo de conversão. Todavia, vamos sofrer porque encarnamos em nós a vontade de Deus que é contrária a vontade do mundo e por isso seremos rejeitados, incompreendidos, colocados a margem.
O sofrimento é parte integrante da missão. Quantas vezes queremos ficar livre de todo sofrimento! Quantas vezes achamos que o sofrimento não faz parte da missão. Por vezes, nem compreendemos por que estamos sofrendo e também nem percebemos que o sofrimento purifica-nos, liberta-nos. O sofrimento oriundo da missão é um sofrimento que nos edifica, que restaura; que nos faz caminhar em direção a santidade.
Moisés sofreu por causa do compromisso que assumiu. E quantos de nós somos incompreendidos por aqueles que mais amamos!
Moisés e Jesus foram traídos pelos destinatários da missão deles. Isto é, são traídos, exatamente, por quem eles dedicaram toda a vida, todo o seu trabalho. Moisés gastou e consumiu sua vida para levar o povo a terra prometida. E este povo, que foi o sentido e objeto da vida de Moisés, o traiu.
Quando Moisés saiu para estar com o Senhor, eles fizeram um bezerro de ouro para adorar e trairam Moisés. À Jesus Cristo, os discípulos, os apóstolos, que foram o sentido da vida de Jesus, de sua encarnação, morte e ressurreição,  também o traíram.
Portanto, aqueles que trabalham conosco, que estão ao nosso lado, aqueles que evangelizamos; que fazem parte da nossa pastoral, nossos familiares, aqueles que ajudamos em atividades sociais; eles continuam sendo os destinatários da nossa missão ainda que nos traiam ou nos rejeitem.
Que a cada dia possamos entender melhor, a exemplo de Jesus e também de Moisés, o que é ser entregue aos irmãos, ao serviço, a uma missão.

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