quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Moisés, o Intercessor


Se houve um homem pronto para “ficar na brecha” em favor do povo de Deus, foi Moisés. Por essa razão, ele sobressai como um tipo de Cristo, o perfeito intercessor, que deveria vir e suportar a punição do pecado em favor de nós todos. O antigo testamento relembra Moisés como o grande líder que enfrentou o faraó para libertar os hebreus do Egito, que conduziu o povo através do Deserto, e lhes trouxe, do Monte Sinai, a Lei de Deus. Mas a escritura recorda também Moisés como o grande intercessor, que repetidamente implorava o perdão de Deus quando seu povo tinha pecado.
Em Moisés, vemos a profundidade do engajamento que liga o intercessor àqueles por quem ele intercede. Quando o povo pecou adorando o bezerro de ouro, Deus estava pronto a destruí-lo e salvar apenas Moisés: “ Deixe, então, que minha ira se inflame contra eles e os consuma. Mas de ti farei um grande nação” (Ex32,10).
No entanto, Moisés manteve-se inabalável, entre Deus e o povo, insistindo que participaria de qualquer punição que sobre eles recaísse: “Se não os perdoardes, então riscai-me do livro que escrevestes” (Ex 32,32). É importante notar que Moisés orou assim por aqueles que pertenciam a Deus, mas pecaram. Ele não orou desta maneira pelas nações pagãs.
Quantos de nós teriam o altruísmo e a coragem de fazer esta oração pelo povo de Deus? Por nossos filhos e outros muito próximos de nosso coração, talvez. Mas orar desta maneira como intercessor exige um compromisso radical com Cristo e seu povo. É impossível sem a graça e a força de Cristo, que é nosso mediador e intercessor diante do Pai.
Moisés nos ensina também outra lição: o poder de intercessão depende de permanecermos unidos ao Senhor. Os autores do Antigo Testamento ficaram abismados diante da intimidade com que Moisés podia falar com o Senhor: “Nenhum profeta surgiu em Israel como Moisés, com que o Senhor falava face a face” (Dt 34,10). Eles falam da face de Moisés que brilhava depois de seus encontros com o Senhor, de tal modo que ninguém suportava ver o brilho de sua face descoberta (Ex34,34-35).
Foi-nos oferecido o privilégio de conhecer Deus ainda mais intimamente do que Moisés. Podemos ir a Deus como seus próprios filhos, no nome de seu Filho bem-amado Jesus, com a ajuda e intercessão de seu Espírito Santo.
Nas seguintes passagens, examinaremos as orações de intercessão de Moisés, o homem que falava face a face com Deus, para ver o que Moisés nos ensina a respeito de nosso próprio ministério de intercessão.

Primeira Oração

“O Senhor disse a Moisés: “Vai, desce, porque se corrompeu o povo que tiraste do Egito. Desviaram-se depressa do caminho que lhes prescrevi; fizeram para si um bezerro de metal fundido, prostraram-se diante dele e ofereceram-lhe sacrifícios, dizendo: eis, ó Israel, o teu Deus que te tirou do Egito. Vejo, continuou o Senhor, que esse povo tem a cabeça dura. Deixa, pois, que se acenda minha cólera contra eles e os reduzirei a nada; mas de ti farei uma grande nação.” Moisés tentou aplacar o Senhor seu Deus, dizendo-lhe: “Por que, Senhor, se inflama a vossa ira contra o vosso povo que tirastes do Egito com o vosso poder e à força de vossa mão? Não é bom que digam os egípcios: com um mau desígnio os levou, para matá-los nas montanhas e suprimi-los da face da terra! Aplaque-se vosso furor, e abandonai vossa decisão de fazer mal ao vosso povo. Lembrai-vos de Abraão, de Isaac e de Israel, vossos servos, aos quais jurastes por vós mesmo de tornar sua posteridade tão numerosa como as estrelas do céu e de dar aos seus descendentes essa terra de que falastes, como uma herança eterna.” E o Senhor se arrependeu das ameaças que tinha proferido contra o seu povo.”(Ex 32,1-14)
Como raramente encontramos uma literal adoração de ídolos em nossa sociedade, podemos ter dificuldades em compreender porque o Antigo Testamento tratava este assunto como pecado tão grave. Leiamos a passagem de Deuteronômio 8,11-20:
“Guarda-te de esquecer o Senhor, teu Deus, negligenciando a observância de suas ordens, seus preceitos e suas leis que hoje te prescrevo. Não suceda que, depois de teres comido à saciedade, de teres construído e habitado formosas casas, de teres visto multiplicar teus bois e tuas ovelhas, e aumentar a tua prata, o teu ouro e o teu bem, o teu coração se eleve, e te esqueças do Senhor, teu Deus, que te tirou do Egito, da casa da servidão. Foi ele o teu guia neste vasto e terrível deserto, cheio de serpentes ardentes e escorpiões, terra árida e sem água, onde fez jorrar para ti água do rochedo duríssimo; foi ele quem te alimentou no deserto com um maná desconhecido de teus pais, para humilhar-te e provar-te, a fim de te fazer o bem depois disso. Não digas no teu coração: a minha força e o vigor do meu braço adquiriram-me todos esses bens. Lembra-te de que ,é o Senhor, teu Deus, quem te dá a força para adquiri-los, a fim de confirmar, como o faz hoje, a aliança que jurou a teus pais. Se, esquecendo-te do Senhor, teu Deus, seguires outros deuses, rendendo-lhes culto e prostrando-te diante deles, desde hoje vos declaro que perecereis com toda a certeza. Como as nações que o Senhor exterminou diante de vós, assim também perecereis vós, se não ouvirdes a voz do Senhor, vosso Deus.”
Comparando esta passagem com a passagem anterior, vemos que o pecado da idolatria está em esquecer que é o Senhor que nos dá tudo e que tudo é d´Ele. Inclusive a força para viver, o vigor para existir é o Senhor que nos dá. E este é o grande pecado de nosso povo atualmente: esquecer as graças, as bênçãos que o Senhor nos concede e confiar em nossos próprios braços.
A oração de Moisés pela misericórdia de Deus oferece um modelo para nossa própria intercessão. Ele faz três apelos ao Senhor, os quais são da seguinte forma: primeiro ele lembra as passadas misericórdias e atos de poder do Senhor, em seguida, pede ao Senhor que proteja a honra de seu próprio nome e por fim, recorda as promessas da Aliança do Senhor.

Segunda Oração

“No dia seguinte, Moisés disse ao povo: “Cometestes um grande pecado. Mas vou subir hoje ao Senhor; talvez obtenha o perdão de vossa culpa.” Moisés voltou junto do Senhor e disse: “Oh, esse povo cometeu um grande pecado: fizeram para si um deus de ouro. Rogo-vos que lhes perdoeis agora esse pecado! Senão, apagai-me do livro que escrevestes.” O Senhor disse a Moisés: “Aquele que pecou contra mim, este apagarei do meu livro. Vai agora e conduze o povo aonde eu te disse: meu anjo marchará diante de ti. Mas, no dia de minha visita, eu punirei seu pecado.” Feriu o Senhor o povo, por ter arrastado Aarão a fabricar o bezerro.” (Ex 32, 30-35)
Numa segunda oração de intercessão, Moisés oferece aceitar sobre si o castigo pelo pecado do povo. Ele se levanta na brecha e arrisca sua própria vida pelo bem deles. Este ato mostra a fidelidade de Moisés ao povo, a Deus e também a fidelidade de Deus ao seu servo Moisés.
Oferecendo-se para carregar o castigo por um pecado que não cometera, Moisés prefigura o verdadeiro intercessor que estava por vir – Jesus. Jesus é aquele que por suas feridas fomos sarados. Jesus é aquele que não conhecendo o pecado, Deus o fez pecado. Jesus é aquele capaz de compadecer-se de nossas fraquezas e interceder por nós diante do Pai só por amor.

Terceira Oração

“Quando Moisés se dirigia para a tenda, todo mundo se levantava, cada um diante da entrada de sua tenda, para segui-lo com os olhos até que entrasse na tenda. E logo que ele acabava de entrar, a coluna de nuvem descia e se punha à entrada da tenda, e o Senhor se entretinha com Moisés. À vista da coluna de nuvem, todo o povo, em pé à entrada de suas tendas, se prostrava no mesmo lugar. O Senhor se entretinha com Moisés face a face, como um homem fala com seu amigo. Voltava depois Moisés ao acampamento, mas seu ajudante, o jovem Josué, filho de Nun, não se apartava do interior da tenda. Moisés disse ao Senhor: “Vós dizeis-me que faça subir o povo, mas não me fazeis saber quem haveis designado para acompanhar-me. E, entretanto, dissestes-me: ‘Conheço-te pelo teu nome’ e: ‘Tens todo o meu favor.’ Se é verdade que tenho todo o vosso favor, dai-me a conhecer os vossos desígnios, para que eu saiba que tenho todo o vosso favor; e considerai que esta nação é o vosso povo.” O Senhor respondeu: “Minha face irá contigo, e serei o teu guia.” “Se vossa face não vier conosco, disse Moisés, não nos façais partir deste lugar. Por onde se saberá que temos todo o vosso favor, eu e o vosso povo? Porventura, não é necessário para isso justamente que marcheis conosco? É o que nos distinguirá, eu e o vosso povo, de todas as outras nações da terra.” “O que pedes, replicou o Senhor, fá-lo-ei, porque tens todo o meu favor, e te conheço pelo teu nome.” (Ex 33,8-17)
A imagem de Moisés na tenda de reunião lhe Significa seu próprio relacionamento profundo de oração com o Senhor. Deus falava com Moisés face a face e nosso relacionamento com o Senhor pode e deve ser assim também, pois Jesus nos garantiu isso ao interceder por nós com sua própria vida.
Deus declarou que não caminharia mais com os israelitas, por temor de que sua contínua rebeldia pudesse provocá-lo a destruí-los. Porém, Moisés diz que aquele povo, mesmo pecador, é povo do Senhor, o povo eleito por Ele e Ele não os poderia abandonar. Tal passagem só mostra a tamanha amizade de Deus com Moisés e vice-versa. E esse relacionamento de amizade herdamos também nós pela promessa de Jesus: “Vós sois meus amigos, se fazeis o que vos mando. Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz seu senhor. Mas chamei-vos amigos, pois vos dei a conhecer tudo quanto ouvi de meu Pai.” (Jo 15,14-15)
Às vezes, quando necessidades especiais ou pessoas especiais estão muito em nossas mentes, toda a nossa oração se torna uma lista de pedidos em vez de ser um tempo de adoração, louvor, e comunhão com Deus. O exemplo de Moisés nos lembra de que um intercessor deve também ter tempo para desenvolver um relacionamento “ face a face” com Deus, um relacionamento de oração no qual Deus se torna nosso amigo íntimo.
Como desenvolvemos um verdadeiro relacionamento íntimo com Deus? Como em tudo, a iniciativa real vem de Deus. O Senhor quer ser nosso amigo, ele quer ter um profundo relacionamento pessoal conosco. No entanto, como em todo relacionamento, também devemos dar passos para abrir nossos corações e nossas vidas para que uma verdadeira amizade possa desenvolver-se.
Isto significa assegurar-nos de que tenhamos um tempo de oração todos os dias. Significa examinar nossas vidas quanto a pecados e atitudes negativas que possam bloquear nosso relacionamento com Deus. Significa aprendermos a verdade sobre Deus mediante cuidadoso estudo da Sagrada Escritura e o ensino da Igreja. E significa reservar, em oração, um tempo para o silêncio, para a escuta de Deus, para esperar a sua ação.
Desenvolver esse relacionamento íntimo e pessoal com Deus é, talvez, o mais importante passo de todos no sentido de nos tornarmos verdadeiros intercessores.

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