“Quando apresentamos diante de ti nossos pedidos, não é em razão de nossas obras justas, mas em razão de tuas muitas misericórdias. Ó, Senhor, escuta! Ó, Senhor, perdoa! Ó, Senhor, fica atento e entra em ação! Não demores mais, ó meu Deus, por ti mesmo! (Dn 9,18-19).
O Antigo Testamento, como o lemos hoje, nasceu do acontecimento mais triste da história do antigo Israel: a destruição de Jerusalém, em 587 a.C., seguida do exílio dos judeus em Babilônia.
Por quase dois séculos, os profetas judeus tinham advertido que o julgamento iria cair sobre o povo de Deus por sua infidelidade à aliança. Israel, o reino judeu do norte, foi o primeiro a cair: foi destruído pelos Assírios em 721 a.C., e as dez tribos do norte foram dispersadas. O reino do sul, Judá, foi poupado por mais cem anos, mas lá também os avisos de Deus foram ignorados.
O que os avisos não tinham conseguido, a humilhante experiência do julgamento de Deus finalmente provocou. Sem país, sem cidade capital, e sem o templo, os judeus tinham que encontrar uma nova identidade como povo, identidade radicada apenas em sua aliança com Deus. Os escribas reuniram os livros sagrados e as tradições salvas da ruína do templo, para criar um registro mais organizado da lei de Deus e sua conduta com o povo de sua aliança. Começou uma grande reforma espiritual.
Através desse longo período de reforma e provação espiritual, o povo de Deus levantava contínua oração de intercessão por sua nação, implorando ao Senhor perdão, misericórdia,e restauração.Encontramos muitos exemplos de oração de intercessão nos escritos do exílio e período pós – exílio,inclusive as orações de Ester (Est4,17k-17z), Neemias (Ne 1,5-11),Esdras (Esd 9,6-15), Baruc (Bar 1,15-3,8) e Daniel (Dn9,3-19).
O tema predominante nessas orações é sempre confissão e arrependimento: “Eu,... Confessando os pecados que nós, de Israel, temos cometido contra vós, eu e a casa de meu pai inclusive’’ (Ne1, 6 ).Embora estes intercessores fossem,freqüentemente ,justos pessoalmente , e não tivessem tomado parte no pecado da nação,aceitavam a responsabilidade da culpa do seu povo.
Hoje estamos testemunhando um maciço afastamento do Senhor em sociedades que foram, antes, fundamentalmente cristãs. A aceitação do aborto, o colapso da moral sexual, a glorificação da cobiça e do egoísmo - desta e de muitas outras maneiras, o povo de Deus está hoje repetindo os pecados do antigo Israel.
Mais uma vez, Deus está nos advertindo que o pecado e a rebelião levam ao julgamento. Ele nos está chamando ao arrependimento, à confissão de nossos pecados, a voltarmos para ele. E está nos chamando a interceder por nossa Igreja e nossa sociedade, com a mesma atitude de responsabilidade pessoal que marcava os grandes intercessores do Antigo testamento.
A passagem seguinte focalizar-se-á numa oração de intercessão do livro de Daniel, que pode dar-nos um modelo para nossa própria intercessão pela Igreja.
“Volvi-me para o Senhor Deus a fim de dirigir-lhe uma oração de súplica, jejuando e me impondo o cilício e a cinza. Supliquei ao Senhor, meu Deus, e fiz-lhe minha confissão nestes termos: Ah! Senhor, Deus grande e temível, que sois fiel à aliança e que conservais vossa misericórdia àqueles que vos amam e guardam vossos mandamentos: nós pecamos, prevaricamos, cometemos maldade, fomos recalcitrantes, desviamo-nos de vossos mandamentos e de vossas leis. Não escutamos vossos servos, os profetas, que falaram em vosso nome a nossos reis, a nossos chefes, a nossos antepassados e a todo o povo da terra. A vós, Senhor, a justiça, e para nós a vergonha, como hoje acontece ao povo de Judá e de Jerusalém, a todo o Israel, àqueles que estão perto e àqueles que estão longe, em todos os países aonde os haveis dispersado por causa das iniqüidades que cometeram contra vós. Sim, Senhor, para nós a vergonha, para nosso rei, nossos chefes e nossos antepassados, porque pecamos contra vós. Ao Senhor, nosso Deus, as misericórdias e o perdão, porque nós nos rebelamos contra ele. Recusamos ouvir a voz do Senhor, nosso Deus; não seguimos as leis que ele nos oferecia pela boca de seus servos, os profetas. Todo o Israel transgrediu vossa lei e se desviou, a fim de não obedecer à vossa voz. Por isso a maldição e a imprecação que figuram na lei de Moisés, o servo de Deus, caíram sobre nós, porque pecamos contra ele. Pôs em execução as ameaças proferidas contra nós e contra nossos governantes: descarregou sobre nós tais calamidades, como jamais sob o céu aconteceu, coisa semelhante àquela que fulminou Jerusalém. Foi de acordo com a lei de Moisés que nos sucederam essas desgraças. E nós nunca procuramos abrandar o Senhor, nosso Deus, renunciando às nossas iniqüidades e dando atenção à vossa verdade. O Senhor não se descuidou do castigo, e o descarregou sobre nós, porque o Senhor, nosso Deus, é justo em tudo o que faz. Mas nós não escutamos a sua voz. Mas agora, Senhor, nosso Deus, que tirastes vosso povo do Egito por um desígnio de vosso poder, e do qual vós fizestes uma glória que perdura ainda hoje, nós pecamos, nós prevaricamos. Senhor, dignai-vos, pela vossa misericórdia, afastar de vossa cidade santa, Jerusalém, vossa cólera e vossa exasperação, porque é devido às nossas iniqüidades e aos pecados de nossos antepassados que Jerusalém e vosso povo são alvo dos insultos de todos os nossos vizinhos. Ouvi, pois, Senhor, a prece suplicante de vosso servo. Por amor a vós mesmo, Senhor, fazei irradiar vossa face sobre vosso santuário deserto. Ó meu Deus, ficai atento para ouvir-nos; abri os olhos para ver nossa ruína e a cidade que ostenta um nome vindo de vós. Não é em nome dos nossos atos de justiça que depositamos a vossos pés nossas súplicas, mas em nome de vossa grande misericórdia. Senhor, escutai! Senhor, perdoai! Senhor, ficai atento! Agi! Por vosso próprio amor, ó meu Deus, não demoreis, pois vosso nome foi dado à vossa cidade e a vosso povo!”(Dn 9,3-19)
A Primeira Seção da oração de Daniel coloca a fidelidade, a justiça e a misericórdia de Deus em contraste com o pecado e a rebeldia do povo de Deus. Nela, há três pares de contrastes entre fidelidade de Deus e a rebeldia de Israel.
Daniel também reconhece a justiça da punição que Deus permitiu que caísse sobre a nação Judaica. Ele relembra a “maldição Jurada”, que Moisés dissera que cairia sobre o povo se se afastassem da aliança.
De acordo com Daniel, mesmo vindo o julgamento sobre a nação judaica, o povo não abandonou sua maldade, e não voltou para o Senhor. Daniel reconheceu o pecado de seu povo e a justiça da punição de Deus. Agora, ele pede que Deus desvie sua ira, e restaure Jerusalém e a nação judaica.
Daniel expressou sua oração de intercessão em ações e em palavras, implorando “com jejuns, vestido de saco e cinzas” (9,3).Saco e cinzas eram sinais de luto no mundo antigo; eram também usados para exprimir arrependimento e dor pelo pecado. Nós católicos, ainda recebemos cinzas no início de cada quaresma, para exprimir arrependimento pelo pecado. Entretanto, na maior parte das vezes, sacos e cinzas seriam mais motivo de distração que de oração, hoje em dia.
O jejum, porém, permanece uma forma de intercessão e de oração muito importante. Como forma de penitência e autonegação pessoal, ele exprime nosso arrependimento pelo pecado fazendo-o especialmente apropriado quando estamos intercedendo pela rebeldia e infidelidade no meio do povo de Deus.
O jejum também exprime nosso comprometimento com a intercessão. O jejum diz a Deus: “Estou levando isto, realmente muito a serio. Quero que ouça a minha oração. Quero orar de acordo com a tua mente, a tua vontade”.
A prática cristã de séculos, de observar um dia de jejum por semana pode proporcionar uma poderosa oportunidade de intercessão. O tipo de jejum seguido varia de acordo com a idade, saúde e trabalho de cada pessoa. Alguns podem simplesmente omitir uma comida ou bebida favorita; outros, podem não fazer uma ou mais refeições; outros podem passar apenas a pão e água.
Seja honesto quanto ao que você crê que Deus está lhe pedindo como jejum, e poderá abrir um novo e poderoso caminho para a intercessão.

0 Intercessões:
Postar um comentário