“Simão Pedro seguia Jesus, e mais outro discípulo. Este discípulo era conhecido do sumo sacerdote e entrou com Jesus no pátio da casa do sumo sacerdote, porém Pedro ficou de fora, à porta. Mas o outro discípulo (que era conhecido do sumo sacerdote) saiu e falou à porteira, e esta deixou Pedro entrar. A porteira perguntou a Pedro: Não és acaso também tu dos discípulos desse homem? Não o sou, respondeu ele. Os servos e os guardas acenderam um fogo, porque fazia frio, e se aqueciam. Com eles estava também Pedro, de pé, aquecendo-se. O sumo sacerdote indagou de Jesus acerca dos seus discípulos e da sua doutrina. Jesus respondeu-lhe: Falei publicamente ao mundo. Ensinei na sinagoga e no templo, onde se reúnem os judeus, e nada falei às ocultas.” (Jo 18,15-20)Às vezes podemos ser um personagem sem nome e aparentemente sem importância; mas sempre temos a oportunidade de transcender a história com o simples abrir de uma porta.
Quando o texto grego se refere a um “piadeske”, poderíamos traduzir como “uma jovem serva”, que cuidava da porta do Palácio do sumo-sacerdote de Jerusalém.
Graças a essa mulher tão insignificante e com um trabalho tão simples, criam-se situações que vão transcender o tempo e o espaço.
Nada sabemos dessa jovem: de que cor era seu cabelo, se estava apaixonada por um “príncipe encantado”, que marca de roupa usava, muito menos de que tipo de música gostava. Desconhecemos seus sonhos, ideais, sua história e seu caráter. Só sabemos sobre o trabalho que realizou naquela noite fria de primavera e a maneira como a realizou que a fez transcender o tempo.
Conseguiu um empregado em um lugar muito importante: o palácio de Anãs, o sumo-sacerdote de Jerusalém. Não era qualquer um que podia ostentar esse privilégio, muito menos sendo mulher.
Conhecia as pessoas mais importantes da hierarquia religiosa e, talvez, fosse testemunha “muda” de artimanhas políticas que aconteciam nas altas esferas da estrutura do templo.
Entramos para a história pelo que fazemos, seja lago positivo ou negativo. Marconi é conhecido pela invenção do telégrafo, Colombo pelo descobrimento de terras na América, Hitler pelas diversas guerras ao qual esteve presente.
Qual é o elemento positivo que está definindo nossa permanência na História? Qual o elemento negativo que pode estar desenhando nossa lembrança na história? A posteridade nos reconhecerá por uma só coisa. Por qual?
Nas vésperas da Páscoa, a porteira teve muito trabalho, pois tirou e colocou três vezes a fechadura da porta pela qual era responsável.
Naquela noite fria, quando começava a primavera, ela estava zelosamente cumprindo o seu dever, quando bateram à porta. Alguém chamava. Ela olhou pela abertura, viu um homem amarrado e rodeado pelos guardas do templo e das autoridades, levando tochas nas mãos.
Abriu a porta para que entrasse o cortejo vociferante, e realizasse, então, a farsa de um julgamento que havia sido decidido bem antes: a sentença de morte do Nazareno.
Ela abriu o caminho para que Jesus cumprisse Sua missão salvífica, deixando entrar o Bom Pastor, para que pudesse entregar Sua vida por nós e a nós.
Foi seguindo Jesus com seu olhar, até perdê-lo de vista, quando sumiu atrás do salão sacerdotal. Naquela noite seria julgado e condenado o único homem justo de toda a História.
Voltou a trancar a porta e fechou os cadeados. Guardou as chaves e continuou se aquecendo no fogueira do pátio. Mais tarde, Anás enviou Jesus ao palácio de seu sogro, Caifás. O Mestre que então havia entrado, saiu pela mesma porta. Entrou e saiu.
Quantas vezes nos acontece o mesmo? Deixamos que Jesus entre nossa vida, mas depois não fazemos nada para impedir-lo de sair. Quantas vezes Jesus entrou e saiu de nosso coração?
“Simão Pedro seguia Jesus, e mais outro discípulo. Este discípulo era conhecido do sumo sacerdote e entrou com Jesus no pátio da casa do sumo sacerdote,...” (Jo 18,16)
Depois, chegaram os discípulos e Pedro. O primeiro era amigo do sumo-sacerdote, portanto tinha entrada livre nos recintos mais privilegiados. Aquela jovem porteira abriu a porta para que o discípulo estivesse perto e acompanhasse Jesus naqueles difíceis momentos. Graças ao seu serviço, Jesus teve a presença de alguém de quem necessitava e amava, naquele momento de dor.
A servente voltou a fechar a porta com os cadeados.
“..., porém Pedro ficou de fora, à porta. Mas o outro discípulo (que era conhecido do sumo sacerdote) saiu e falou à porteira, e esta deixou Pedro entrar.”(Jo 18, 16)
Abriu a porta pela terceira vez. O chefe dos apóstolos devia passar por um interrogatório de uma simples jovem que não tinha armas, nem ostentava autoridade alguma:
“A porteira perguntou a Pedro: Não és acaso também tu dos discípulos desse homem?” (Jo 18, 17 a)
A jovem, de acordo com suas funções, interrogou o pescador de Cafarnaum. Era seu dever, mesmo que a pergunta fosse desnecessária, pois de acordo com seus trajes e sotaque nortista, era evidente ser Pedro galileu. Além disso, seu rosto angustiado o entregava como um discípulo daquele homem que estava com sérios problemas com a justiça.
Pedro, então, respondeu brevemente, com receio de ser descoberto por seu sotaque galileu:
“Não o sou, respondeu ele.” (Jo 18, 17b)
Ela não perguntou mais nada. Acreditou na palavra tensa do galileu. Parecia que nem o sotaque, nem a maneira de se vestir levantaram suspeitas.
É interessante notar que ela se referiu a Jesus como “esse homem”. Não pronunciou nenhum nome dado pelos homens para serem salvos. Jesus passou por tão perto dela, mas ela não se deixou cativar por Ele.
Enquanto isso, Jesus foi interrogado pela autoridade suprema. O sumo-sacerdote perguntou sobre Seus discípulos e Sua doutrina. O Mestre respondeu com segurança e dignidade:
“Falei publicamente ao mundo. Ensinei na sinagoga e no templo, onde se reúnem os judeus, e nada falei às ocultas.” (Jo 18, 19-20).
O Mestre não se defendeu, mas deixou que fizessem a Sua defesa aqueles que O escutaram.
Ali fora encontrava-se um , talvez o mais autorizado para fazê-lo, mas que o estava negando e afirmando que não era um dos Seus discípulos, que não O conhecia. E para se livrar do perigo de ser preso, jurou que não tinha nada a ver com o Galileu e até O injuriou com maldições:
“Então ele começou a praguejar e a jurar: Não conheço esse homem de quem falais. E imediatamente cantou o galo pela segunda vez. Pedro lembrou-se da palavra que Jesus lhe havia dito: Antes que o galo cante duas vezes, três vezes me negarás. E, lembrando-se disso, rompeu em soluços.” (Mc 14, 71-72)
“Voltando-se o Senhor, olhou para Pedro. Então Pedro se lembrou da palavra do Senhor: Hoje, antes que o galo cante, negar-me-ás três vezes. Saiu dali e chorou amargamente.” (Lc 22, 61-62)
Ao sair, Jesus, condenado, olhou para Pedro que estava se aquecendo perto da fogueira, enquanto um galo anunciou a madrugada. Os olhares se encontram e o pescador de Cafarnaum caiu em lágrimas de amargura diante de todos. Saiu pela mesma porta, em prantos. Ninguém o detinha agora, nem lhe perguntava nada. Já não era necessário.
Não sabemos se a jovem abriu a porta a Pedro para que ele saísse. A única coisa que sabemos é que ele passou por ela e talvez nunca mais tenha voltado a vê-la.
Quantas pessoas têm saído por nossas portas? O que temos feito para que as pessoas se aproximem de Jesus? Quem são essas pessoas? Ou temos feito algo para que O neguem? Quantos Pedros têm saído chorando pela porta de nossa vida?
Não basta abrir a porta da nossa vida, temos de saber para quem a estamos abrindo, com que motivações e para o que fazemos. Infelizmente, podemos abrir por motivos contrastantes e contraditórios.
A porta dessa jovem representa nossa vida: por ela entrar Jesus, mas infelizmente, por ali mesmo pode sair; por ali também entram “Joãos” para acompanhar o Mestre e pela mesma porta saem Pedros chorando.
Não importa para quem iremos abrir a porta, mas por que e para que a abrimos.
A humanidade se lembrará de nós por meio das pessoas que permitimos passar pela porta de nossas vidas. Isso repercutirá e toda a história.
Jesus está chamando hoje diante da porta do nosso coração:
“Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir a minha voz e me abrir a porta, entrarei em sua casa e cearemos, eu com ele e ele comigo.” (Ap 3, 20)
É uma oportunidade única e talvez irrepetível. Para alguns pode ser a última.
Escutemos a voz que está nos chamando.











